sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Poema Desesperado - Torquato Neto

Esta noite abortei as rosas mais vermelhas
que em mim geraram a minha angustia.
Caminhando intranqüilo nesta noite
escarrarei o fel e o fogo que nasceram frutos
do fato verde, azul, oliva, negro
desta figura emoldurada em minha frente.
Desta moldura onde não encontro mais que a coisa semi-aberta
remodelando o barro desta angustia.
Em pretoazulrosavermelho - já sem pouco
o meu escarro há de deixar no imenso rastro
a marca escura desta noite apodrecida.
Transporto a face da pessoa amada
(distante como a rosa esbranquiçada
que plantei na infância em meu jardim perdido)
e aniquilo (já tranqüilo) esta lembrança amarga
dos anos dissolutos e passados.
(descubro agora: neste bar só vendem ausência)

Crianças, esperai! o poeta este perdido dentro da vida
mas há de procurá-las, esperai! há tempo ainda.
É na fogueira acessa deste tempo
que plantarei a rosa e colherei a angustia redobrada,
e me farei em fruto e carne, osso e anzol,
e negarei o fato
e aceitarei o fato.
Esta noite abortarei as rosas mais terríveis,
destilarei em álcool o feto recém - vindo
e alucinado eu brindarei a saúde do meu pranto
e atolarei em verde esta tristeza.

Sem comentários: